ALLAN KARDEC EM PARIS » Cemitério do Père-Lachaise

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Guia
Allan Kardec em Paris

Cemitério do Père-Lachaise

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Comecemos pelo fim da história: o cemitério. É o que temos de mais próximo de Kardec, fisicamente; é o que as pessoas mais conhecem, em fotos atuais, da história dele em Paris; é um dos poucos pontos turísticos muito populares de nossa viagem.

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Sim! O Cimetière du Père-Lachaise [simtiérr dy pérr lachéze] é um ponto turístico muito procurado em Paris. Não importa o dia da sua visita: haverá muitos turistas por ali. São mais de dois milhões de pessoas por ano, por isso ele é considerado o cemitério mais visitado do mundo.

O Père-Lachaise possui uma aura de importância histórica, cultural, por abrigar restos mortais de grandes personalidades, como Marcel Proust, Oscar Wilde, Honoré de Balzac, Eugène Delacroix, Frédéric Chopin, Molière, Sarah Bernhardt, Jean de La Fontaine, Auguste Comte, Jim Morrison, etc. Espere! Falta alguém nessa lista. Ah, sim: Allan Kardec.

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Entrada principal.

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Uma visita que exige foco

Além de consagrar-se na posição de cemitério mais visitado do mundo, o Père-Lachaise mantém-se como o maior de Paris, com uma impressionante área de 44 hectares. Já abrigou os restos mortais de mais de um milhão de pessoas. Tumbas somam 70 mil.

Diante desses números monumentais, não espere conhecer todo o cemitério. Essa é uma natural dificuldade que surge na visita a vários pontos turísticos do planeta, por serem gigantescos. Por exemplo, em Paris, o turista certamente visitará o Museu do Louvre, mas apenas em sonho conhecerá tudo de uma vez. É preciso delimitar interesses, programar a visita, focar em pontos específicos de cada local.

No Père-Lachaise, é difícil até mesmo limitar-se às pessoas mais famosas sepultadas ali. São dezenas, com túmulos distantes uns dos outros. O turista prudente pega a lista dos principais nomes e faz uma seleção. Em minha primeira visita, para as pesquisas deste guia, fiquei quatro horas lá dentro, mas devo ter conhecido apenas uns vinte por cento do cemitério.

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Um pouco da história

O Père-Lachaise foi inaugurado em 1804 — coincidentemente, ano de nascimento de Rivail/Kardec. Era a época de Napoleão Bonaparte. O nome do cemitério origina-se de Père François d’Aix de La Chaise (1624–1709), padre jesuíta, confessor de Luís XIV. Ele viveu em uma casa no local da capela.

No início, os parisienses ficaram hesitantes quanto a reservas de sepulturas ali. Em 1815, havia menos de 2 mil tumbas, e o cemitério atingia um total de 17 hectares.

Devido a essa falta de “popularidade”, os administradores consideraram lançar uma grande campanha de marketing. Em 1817, com muita divulgação, os supostos restos mortais de Molière e de La Fontaine foram transferidos para lá. Isso chamou a atenção do povo. Em 1830, já havia 33 mil tumbas. Entre 1824 e 1850, o cemitério sofreu expansões, chegando aos atuais 44 hectares.

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O túmulo de Honoré de Balzac é um dos mais populares.

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O Père-Lachaise ainda é um cemitério em atividade. São aceitos novos funerais, mas a lista de espera é enorme.

A falta de espaço coloca o cemitério além do limite. Algumas tumbas e mausoléus abrigam restos mortais de vários familiares ao mesmo tempo. Geralmente, cede-se o espaço a uma família por algumas décadas; depois, se o contrato não for renovado, os ossos são transferidos para o Ossário Aux Morts, abrindo o espaço para um novo funeral.

Recentemente, devido à lotação do ossário, ossos foram transferidos para o crematório, incinerados e devolvidos ao local anterior. (Vale antecipar: o túmulo de Kardec, que veremos daqui a pouco, fica perto do crematório.)

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Apesar de sinistro, o crematório impressiona pela beleza da arquitetura.

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Cuidados durante a visita

Durante a visita, anda-se muito, inclusive em piso irregular, e é necessário subir escadas. Portanto, a visita é imprópria para pessoas com dificuldade de locomoção.

Sem sapatos confortáveis, nem tente. Sapatos femininos com saltos seriam um pesadelo pior que ver os mortos levantarem-se das tumbas para atacar os visitantes. Anda-se por caminhos cobertos por pedras. Recomendo o uso de tênis.

Cuidado, também, para não passar sede — um alerta ainda maior no verão. Em minha primeira visita, era julho, pleno verão europeu. E eu sem água ali. Há algumas torneiras pelas ruas do cemitério, mas… você tomaria aquela água?

Convém comprar água em algum bar nos arredores do cemitério. Uma garrafa pequena, para carregá-la facilmente. À direita da entrada principal, em uma esquina, há um bar. Sentei-me a uma mesa, após a visita, para matar a sede.

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Leve água, mas não programe comer lá dentro. (Achou absurdo? Vi pessoas fazerem isso, apesar de ser proibido — e nojento.) Se preciso, coma antes da visita. Os mesmos bares nos arredores servem lanches.

Banheiros são um detalhe menos complicado. É natural surgir alguma necessidade durante uma longa visita. Para alívio de todos, há banheiros no cemitério, mas poucos: na área da entrada principal e na entrada alternativa Porte Gambetta. Não “segure” por muito tempo; pode ser uma longa caminhada até o banheiro mais próximo.

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Se você tiver tempo e se for daquelas pessoas que dizem sentir paz em cemitério, sem se impressionarem com nada, aproveite alguns minutos para relaxar. Há bancos em algumas áreas, em meio a muitas, MUITAS árvores, flores, pássaros.

É comum ver visitantes sentados, relaxando, contemplando, lendo um livro. Isso é muito pessoal. Há quem entre lá e goste da visita, pela parte cultural, mas fica ansioso em ir embora. (Espíritas geralmente não “temem” cemitérios. Que tal você?)

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Visitantes sentam-se, relaxam, contemplam, lêem — como nesta foto, capturada em uma área perto do crematório.

A quem souber enxergar beleza em um lugar desses, a visita poderá render boas fotografias. O uso de câmeras é livre.

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Escolas públicas de Paris organizam excursões ao cemitério com os alunos. Além da exploração do universo cultural ali presente, os educadores esperam que os alunos passem a enxergar a morte com mais naturalidade.

Eu vi mesmo algumas crianças entre os visitantes. Acho estranho. Psicologicamente, não podemos garantir o impacto que a visita terá nelas. Além disso, o ambiente é contaminado, velho, certamente cheio de fungos e bactérias. Imagine, eu vi até pessoas com bebês, que ainda não possuem resistência imunológica apropriada.

O alerta vale também para adultos que tenham enfrentado alguma doença grave recentemente ou que estejam se tratando de uma. Lembre-se: um sistema debilitado fica mais sujeito a contaminações.

Muitos túmulos e mausoléus estão abandonados, em situações precaríssimas. Parte deles tem a tampa ou as portas abertas. O ser humano, curioso por natureza, tende a dar uma espiadinha.

Imagine o que um local desses concentra de agentes patogênicos. O maior perigo é respirar perto. Se você não resistir à curiosidade, ao menos prenda a respiração ao espiar.

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O túmulo de Jim Morrison, líder da banda The Doors, é um dos mais procurados… e mais problemáticos. Desde 1971, fãs do artista reúnem-se junto ao túmulo para beber, fumar e usar drogas. Garrafas, cigarros e seringas às vezes podem ser vistos no local (felizmente, flores também). Depois de certa vigilância, o problema diminuiu. Isso serve de alerta para uma visita responsável ao cemitério — com pleno respeito aos túmulos e a si próprio, protegendo-se de contaminações. Daqui a pouco, você verá uma mensagem na parte de trás do túmulo de Kardec. Lembre-se de respeitar o que se pede nela.

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A visita

Vimos que é necessário ter foco, sem a pretensão de querer conhecer todos os túmulos famosos. Mas como organizar-se em um cemitério tão grande?

Nas entradas, há um tipo de guarita. Pegue um mapa do cemitério — é gratuito. (Oferta em dobro: a visita ao cemitério é gratuita.)

O mapa, estranhamente, não mostra todos os túmulos famosos. Para nosso alívio, Allan Kardec tem o prestígio de aparecer nele. Isso é curioso, aliás. Kardec não é mais famoso na França. A presença dele no mapa deve-se, talvez, ao grande número de brasileiros que visitam o cemitério todos os anos e perguntam por ele.

Com o mapa em mãos, fique tranquilo: você encontrará o túmulo, mesmo que se perca algumas vezes. O mais complicado, para algumas pessoas, é a longa caminhada, com subidas e degraus no caminho.

O cemitério é organizado em Rua (Rue), Avenida (Avenue) e Divisão (Division). Uma Divisão é como uma quadra residencial, cada uma com suas sepulturas. A partir do portão principal, você segue cemitério acima guiando-se pelo mapa. Vá conferindo nomes de ruas e de avenidas e números de divisões. Para ajudar mais ainda, pontos como capela e escadas são indicados no mapa.

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A Prefeitura de Paris fornece um mapa mais detalhado que o oferecido no cemitério. Para você ficar mais tranquilo, consulte-o antes da viagem. Imprima e coloque em sua mala. Há uma versão em formato PDF neste blog. Para visualizar, acesse

ViagemFantastica.com/Pere-Lachaise-Mapa.pdf

Para facilitar ainda mais, talvez você queira contratar um guia. Informe-se naquela guarita à entrada principal. (Boa sorte se você não entende francês, porque os funcionários de lá, como a grande maioria dos franceses, não conversam em inglês.) Alguns guias estão disponíveis por apenas 5 euros.

Sinceramente? Acho dispensável esse recurso. Os mapas são fáceis de entender. Além disso, só vi guias falarem em… francês, é claro.

Há empresas que organizam grupos com guias, inclusive com instruções em outros idiomas. Você pode contratar o serviço pela internet, antes da viagem. Por exemplo, visite www.viator.com. O link para a opção do Père-Lachaise, nessa empresa, é goo.gl/Gs3EY5. (Não conheço os serviços deles. Cuidado!)

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Um guia local lidera um grupo.

Além de guias, muitas pessoas me perguntam sobre aplicativos para iOS (iPhone, iPad) ou Android dedicados ao cemitério. Por incrível que pareça, eles existem. Ainda não recomendo nenhum, porque são ruins e estão desatualizados. Entre eles, o mais interessante é o Meet Me At Père Lachaise, para iPhone. Inclui fotos, informações, mapas e áudios para alguns dos túmulos mais populares. Antes da visita, você pode navegar virtualmente pelos túmulos famosos e marcar os que desejar como favoritos, para posterior localização rápida. O túmulo de Kardec, no entanto, não faz parte do aplicativo. Entrei em contato com o desenvolvedor; ele disse-me que adicionará Kardec na próxima atualização.

No momento em que escrevo este livro, o aplicativo custa apenas 1,99 dólar. Use este link para visitá-lo na App Store, da Apple: goo.gl/b7Cfl2.

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Os mesmos autores do aplicativo publicaram um livro Kindle de mesmo nome e conteúdo similar. Você pode comprá-lo pela Amazon.com. Acesse goo.gl/Kj0BtZ. O livro custa 12,29 dólares.

E eles foram além. Vendem, pela Play Store (para Android), um álbum de músicas especiais para você ouvir durante a visita ao cemitério. Sinistro. Você encontra o álbum aqui: goo.gl/tKVX5u. Custa 20 dólares.

O web site dos autores é www.perelachaisecemetery.com.

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Com prazer. E tenho duas surpresas para você: túmulos de duas pessoas intimamente ligadas a Allan Kardec. Poucos brasileiros que visitam o Père-Lachaise sabem da existência deles. Há uma surpresa extra: uma mulher que você conhecerá daqui a pouco. Além disso, falaremos sobre Kardec e a Maçonaria.

Veja a seguir um detalhe do mapa em PDF que eu aconselhei visitar neste blog. Observe como é fácil guiar-se por ele para chegar ao túmulo de Kardec. A seta 1 indica a entrada principal, na Rue du Repos com a Boulevard de Ménilmontant; a seta 2, o crematório e o columbário; a seta 3, o túmulo de Allan Kardec. Kardec está na Divisão 44.

A seta 4 indica uma das entradas alternativas do cemitério (Gambetta), na Rue des Rondeaux. Isso facilita, porque os túmulos de nosso maior interesse estão mais perto dela. Mas, a não ser que você não tenha muita disposição para andar, recomendo a entrada principal, porque a experiência da visita é mais intensa. Você descobrirá mais personalidades pelo caminho. O nome, afinal, diz tudo: entrada principal.

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1: Entrada principal | 2: Crematório e columbário | 3: Túmulo de Allan Kardec (Divisão 44) | 4: Uma entrada alternativa

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Enfim, o túmulo de Allan Kardec

A foto a seguir mostra a minha primeira visão do túmulo de Allan Kardec (após a árvore no meio), quando virei em uma esquina.

Observe o menino na lateral do túmulo e a mulher, curvada, meio oculta pelas colunas. Descobri que se tratava de avó e neto. Essas pessoas foram uma enorme surpresa durante a minha visita.

A mulher é a Srª Najat, marroquina radicada em Paris há mais de 40 anos. Conversei com ela. Além de educada, simpática e prestativa, ela é uma figura especialíssima ali dentro. Todos os dias, durante aproximadamente quatro horas, passeia pelo Père-Lachaise. Geralmente, com o neto Adam.

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Sempre florido, o túmulo de Kardec atrai curiosos o tempo todo — até visitantes que nunca ouviram falar dele.

Há um toque especialíssimo na presença da Srª Najat: ela cuida, diariamente, do túmulo de Kardec, com um carinho que emociona. É como se fosse uma filha a cuidar do túmulo do pai. Com isso, o túmulo está sempre cheio de flores FRESCAS, ofertadas por ela e pelos visitantes — brasileiros, principalmente.

Não acho exagero dizer que a Srª Najat é o anjo de Kardec no Père-Lachaise. Aliás, anjo de Kardec e de Amélie-Gabrielle Boudet [amelí gabrriéle budê], esposa dele, sepultada junto. O carinho da Srª Najat é tão grande que, ao saber que eu pesquisava para este guia, ela posou para uma foto, oferecendo um buquê aos leitores — a VOCÊ!

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Flores para… VOCÊ!

Com as quatro horas diárias que ela passa no Père-Lachaise, há uma grande possibilidade de você encontrá-la durante a sua visita. A maior probabilidade é entre 10h da manhã e 2h da tarde. Inicie uma conversa e ela será imediatamente receptiva.

O único problema é a comunicação com ela exclusivamente em francês. Se necessário, improvise. Use o aplicativo Google Tradutor em seu smartphone. Você pode escrever em português e mostrar na tela a tradução em francês. Também é possível falar para o aplicativo. Ele compreende as frases e mostra a versão em outro idioma. Além disso, reconhece textos em imagens. Viu uma placa em francês e gostaria de saber o que está escrito ali? Fotografe a placa pelo aplicativo e ele mostra a tradução. Nem sempre é exato, mas ajuda muito. Por padrão, o aplicativo usa a internet para funcionar, mas você pode baixar a base de dados de cada idioma para uso off-line. (Google Tradutor para Android: goo.gl/XyUjI4. Para iPhone: goo.gl/La48sW.)

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O túmulo, em granito bruto, foi projetado em formato de dólmen, por isso é comum a expressão “o dólmen de Kardec”. Trata-se de um monumento druídico. Antes do lançamento de O Livro dos Espíritos, Rivail recebeu uma mensagem do Espírito Zéfiro, com a revelação de que os dois haviam convivido nas Gálias (celtas), durante o tempo dos druidas. Segundo a mensagem, o nome de Rivail, naquela vida, era Allan Kardec.

Como você já sabe, não conheci todo o cemitério, mesmo com mais de uma visita. Mas vi uma considerável parte dele. O único túmulo sempre com grande variedade de flores — e flores frescas — é o de Kardec e Amélie. Há dois outros túmulos, também muito especiais para os espíritas, que exibem flores constantemente, mas não na quantidade de flores que se vê ali. Você saberá isso daqui a pouco. Enfim, posso dizer que os túmulos constantemente floridos estão ligados ao Espiritismo.

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Algumas perguntas preenchem a mente da maioria dos visitantes não brasileiros: Por que tantas flores, e frescas? Por que é o único túmulo que se destaca assim? Quem é esse Allan Kardec? Ah, espere, há algo escrito na pedra que sustenta o busto dele: “Fondateur de la Philosophie Spirite”.

E quando Hippolyte Léon Denizard Rivail [ipolíte leôn denizarr rivái], ou Allan Kardec, chegou ali?

Ele morreu em 1869, aos 64 anos. Foi sepultado no Cemitério de Montmartre, em Paris. Um ano depois, o corpo foi transferido para o Père-Lachaise.

Em 1883, foi a vez da esposa, a querida e respeitada Amélie-Gabrielle Boudet.

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“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei.”

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Discreta, atrás do túmulo de Kardec, esta placa explica superficialmente quem ele era e apresenta algumas recomendações da União Espírita Francesa. Pede-se que os visitantes respeitem o local, evitando atitudes de idolatria e fanatismo — sem imposição de mãos, sem pedidos deixados por escrito, sem ajoelhar-se, etc. Em minhas visitas, não presenciei nenhuma atitude “indesejada”.

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Há um detalhe interessante sobre esse túmulo. Jorge Damas Martins e Stenio Monteiro de Barros, no livro Allan Kardec — Análise de Documentos Biográficos (veja a lista de obras no final deste guia), comentam um erro na data de nascimento da Srª Rivail publicada em várias biografias. Há pouco, você viu inscrita, na coluna do túmulo, a data 21 de novembro de 1795. Na verdade, ela nasceu no dia 22.

Esse é um mero detalhe. Está curioso para saber dos outros dois túmulos relacionados com o Espiritismo? Vamos, então, ao túmulo de Gabriel Delanne e ao túmulo de Pierre-Gaëtan Leymarie. Ambos renderam-me mais emoções com a Srª Najat.

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Túmulo de Gabriel Delanne

Depois da visita ao túmulo de Kardec, a Srª Najat disse que tinha “duas outras coisas” para me mostrar. Aquela mulher era muito interessante, curiosa, cheia de surpresas. Prontifiquei-me a acompanhá-la imediatamente.

Caminhamos um pouco pelo cemitério… e, de repente, ela apontou para um túmulo.

Era de Gabriel Delanne. Ela facilitou meu trabalho, porque eu ia chegar até lá pelo mapa com anotações minhas (o mapa oficial não mostra Delanne nem Leymarie).

A grande surpresa foi ver esse túmulo também florido. Não como o de Kardec (até porque o espaço é menor), mas florido, bem cuidado. Adivinhe quem cuida dele…

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O túmulo de Delanne está muito próximo — ufa! — ao de Kardec. De frente para o túmulo de Kardec, vire para a direita e siga até a “esquina”. São aproximadamente 40 passos. Vire à esquerda. A poucos metros, você verá o túmulo.

Gabriel Delanne nasceu em 1857 — curiosamente, ano de lançamento de O Livro dos Espíritos. Como Léon Denis e Camille Flammarion, foi um dos maiores e mais respeitados estudiosos e divulgadores do Espiritismo.

Seu contato com Kardec foi durante a infância. Kardec morreu quando Delanne tinha apenas 12 anos. Os pais do garoto acompanharam de perto os trabalhos de Kardec para estruturar a Filosofia Espírita. O pai, Alexandre Delanne, era tão íntimo que foi uma das pessoas presentes no apartamento de Kardec momentos depois da morte deste.

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Atrás do túmulo de Delanne.

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Pierre-Gaëtan Leymarie

A outra surpresa que a Sra. Najat tinha para mim era o túmulo de Pierre-Gaëtan Leymarie [piérr gaetã leimarrí]. Mais uma vez, tive o privilégio de dispensar o mapa.

O túmulo fica na Divisão 70, em frente de um tipo de “rotatória”, com a Divisão 71 ao lado. Veja o mapa do cemitério; você localizará facilmente. A próxima imagem serve como referência: o túmulo está logo atrás.

É uma considerável caminhada até Leymarie, mas não cansativa.

O túmulo também é enfeitado com flores. Preciso dizer quem garante flores sempre frescas?

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O túmulo está aqui atrás.

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Pierre-Gaëtan Leymarie, respeitado no meio espírita, deu continuidade à obra de Kardec. Entre outras atividades, destacou-se a sua atuação como diretor da Revue Spirite [revy spirríte].

À frente da revista, foi um dos protagonistas, em 1875, de um escandaloso caso conhecido como Processo dos Espíritas.

As fotografias de materializações de espíritos estavam em evidência. A própria Revue Spirite precipitou-se em publicar algumas, sem prévia análise muito cuidadosa. O erro da Redação foi o vínculo com o fotógrafo Édouard Buguet (que trabalhava com um médium), acusado, mais tarde, de usar meios fraudulentos para obter as “fantásticas fotografias”. Ele foi investigado e processado pela Justiça francesa. Pessoas associadas a ele foram automaticamente atiradas ao mesmo abismo: Leymarie, como um dos acusados, e até a própria viúva de Kardec, já com mais de 80 anos, como uma das testemunhas.

Segundo dizem, houve uma conspiração em torno do Processo, armada, segundo indícios, por “forças do materialismo” e pela Igreja Católica. A idéia era usar o caso para minar as estruturas do Movimento Espírita. Sem Kardec para atuar nesse imbróglio, seria fácil atingir os objetivos dos inimigos do Espiritismo. O processo foi manipulado, com um juiz agressivo, inquisitorial, que acusava, desrespeitava, gritava, podava a defesa. Réus e testemunhas sofreram pesadas humilhações.

Buguet e Leymarie foram condenados a prisão e multa. Leymarie sempre alardeou sua inocência, e manteve o respeito no meio espírita. Buguet admitiu as fraudes, mas não em todas as fotos. Quando ele e o médium não atingiam os objetivos desejados com uma foto, eles simplesmente forjavam o resultado. Mais tarde, na prisão, Buguet escreveu uma carta para confirmar a inocência de Leymarie.

O Processo foi violento, mas teve um lado positivo: serviu de lição aos espíritas. Apesar da seriedade e da boa vontade de Leymarie, faltou bom-senso ao analisar as fotografias de materializações de espíritos antes da publicação na revista. Certamente, se fosse na época de Kardec à frente da revista, esse “deslize” não teria acontecido.

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A viúva de Kardec em uma das polêmicas fotos que originaram o processo.

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Allan Kardec e a Maçonaria

O assunto “Kardec e Maçonaria” rende calorosas discussões.

Não há dúvidas de que ele era membro de sociedades sábias, mas muitos estudiosos não admitem a participação direta dele na Maçonaria. Entendem que ele apenas tinha conceitos filosóficos comuns aos maçônicos.

Com base em minhas leituras, e sem nenhuma autoridade para afirmar nada a respeito, eu digo que acredito na idéia de ele ser maçom. Depois, as pesquisas para este guia reforçaram essa impressão.

ALLAN KARDEC EM PARIS » Kardec e MaçonariaConversei sobre isso com um maçom, que apresentou pontos importantes. Segundo ele, trabalhos internos na Maçonaria apontam a iniciação de Kardec. É notório que Kardec utilizava pensamentos maçônicos em seus textos. A questão é que ele ia além: empregava termos e linguagens específicos da Maçonaria. Maçons usam, em textos, frases e termos que passam despercebidos pelos profanos (nome dado aos não iniciados). Se Kardec teve acesso a esse tipo de linguagem, deve ter sido iniciado. Será que o uso daqueles termos foi apenas coincidência?

Além disso, a Maçonaria, apesar de não vincular-se a religião, sempre foi simpática ao Espiritismo. Inúmeras mensagens mediúnicas estudadas e propagadas no meio espírita foram recebidas em reuniões maçônicas. Consideremos, também, que contemporâneos de Kardec, intimamente ligados ao Espiritismo, eram maçons. Por exemplo, Léon Denis pertencia ao Grande Oriente da França. A Maçonaria, séria em seus estudos, desde sempre se esforça para atrair grandes mentes a seu meio. Rivail/Kardec seria, digamos, uma escolha natural.

O maçom com quem eu conversei apresentou-me uma parte de um documento que pertence a uma peça de arquitetura de um Irmão da Maçonaria. Observe, nestes trechos, como eles se referem a Kardec (o uso de itálico é meu): “Allan Kardec baseou sua doutrina nos princípios maçônicos […] A profunda influência dos princípios maçônicos sobre a doutrina do Kardecismo é explicada pelo fato de o Irmão Allan Kardec ter sido iniciado em nossos segredos antes de se tornar o edificador do Espiritismo”. Definitivamente, vêem Kardec como um Irmão.

O túmulo no Père-Lachaise fornece mais pistas. Já vimos que Kardec foi transferido para esse cemitério um ano após a sua morte. O espaço foi uma doação do Marquês de Montesquiou, que era maçom. O arquiteto do túmulo foi Brongniart, também maçom. Isso nos faz pensar. Concorda?

Por outro lado, aquele maçom observou as fotos do túmulo e, em princípio, não identificou sinais de ser um túmulo de maçom. Nenhum símbolo, nada de iniciais. Pode haver uma alegoria por conta das duas colunas frontais. Nos templos maçônicos, usam-se duas colunas na entrada. Mas isso pode ser mera coincidência — colunas para sustentar o teto do túmulo.

Ficamos limitados a especulações? Por que ninguém apresenta documentos, provas materiais sobre a iniciação de Kardec? Afinal, ser maçom não é mais um segredo.

Voltemos àquela peça de arquitetura. Ela traz uma possível explicação para o fato de não haver documentos sobre a iniciação de Kardec: “[…] em 1870 […] começou a Guerra Franco-Prussiana, que levou a derrota a França, e era comum a queima de documentos e atas das Lojas para evitar problemas. Assim, é possível que documentos existentes da iniciação de Allan Kardec foram perdidos para sempre […] um Grande Maçom, um grande orador do Espiritismo, considerado o maior apóstolo da Codificação e pertencente à Loja Demófilos”.

E você, o que pensa a respeito?

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Fora do cemitério (esquina).

Deseja ver mais fotos? Acesse meu álbum do cemitério no Google Fotos.

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Local & Horários

O endereço do Père-Lachaise é 16, Rue du Repos. (Localize o cemitério direto no Google Mapas.)

De segunda a sexta, o local fica aberto das 8h às 18h. Aos sábados, das 8h30 às 18h. Aos domingos, das 9h às 18h.

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ANTES DE EXPLORARMOS MAIS

Vale ressaltar:

Os pontos apresentados a seguir NÃO aparecerão em ordem cronológica de acordo com a vida de Rivail/Kardec. Deixo a ordem cronológica para livros biográficos. Este guia não é uma biografia, não estuda Kardec; é um breve guia turístico-histórico.

Para facilitar o deslocamento do turista em Paris, os pontos serão apresentados de acordo com a distância entre eles. Não importa se um ponto estiver relacionado com o início da vida de Rivail/Kardec e um outro com o final; se estiverem próximos fisicamente, serão apresentados em sequência no guia.

O ponto de partida será pelo mais próximo da Torre Eiffel. Depois, “subiremos” no mapa de Paris, cruzando o Rio Sena. No outro lado está a maioria dos pontos.

No final dos capítulos, um mapa mostrará o acesso ao ponto mais próximo. Os minutos indicados para chegar lá são apenas um tempo médio. Isso depende de alguns fatores, como a marcha de cada pessoa, se for a pé, e a possibilidade de engarrafamento, se for de carro. Se for de bicicleta, considere o trajeto por carro, pois bicicletas devem seguir — lembre-se disso! — as mesmas regras de trânsito.

Aos leitores que pensam em um roteiro cronológico, apresento uma lista (uma sugestão) no final do guia.

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3 replies on “ALLAN KARDEC EM PARIS » Cemitério do Père-Lachaise”

Gostaria de saber com mais detalhes o que estava escrito na placa atrás do túmulo de Kardec, se possível na integra. A foto da placa está muito pequena, impossível de ler.

No aguardo.

Obrigado

Boa tarde! Adorei o post sobre o cemitério. Estou em Paris e pretendo ir ao Père Lachaise. Você sabe me dizer se Camille Flamarion e Leon Denis também estão enterrados lá? Obrigada! Lívia.

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